Respeitar a vontade do outro é compaixão.

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RESPEITAR A VONTADE DO OUTRO É COMPAIXÃO:

Mestre Nemo e a maioria de seus discípulos mais chegados era vegetariano, as vezes o templo recebia visitantes de outros templos e os praticantes de algumas seitas tibetanas e japonesas eram carnívoros.

Essas pessoas enquanto estavam no templo do Mestre Nemo, não comiam carne em respeito a ele, mas todos sabiam que eles eram carnívoros e quase ninguém comentava, exceto Nidur San, um monge japonês que vivia por lá a várias décadas.

O Sr. Nidur era muito disciplinado e tendia a ser severo com os noviços e até mesmo com os visitantes leigos.

Tendo sido admoestado por ele, um visitante de uma seita japonesa que comia carne aceitou pacificamente todas as criticas que inclusive haviam sido presenciadas pelo Mestre Nemo.

Depois que o Sr. Nidur se afastou esse visitante aproximou-se do Mestre Nemo, fez um reverência e lhe agradeceu.

       – Sei que o senhor sabe que em nossa comunidade comemos carne, mas o senhor nunca comentou nem nos criticou. Quero lhe agradecer por isso.

Mestre Nemo juntou as mãos em frente ao peito, fez uma breve reverência, mas não disse nada.

Em outra ocasião esse mesmo monge dialogou com Mestre Nemo de uma forma mais ou menos assim:

       – Nossa comunidade pesquisa muito técnicas de marketing, temos uma gráfica e publicamos muitos livros em diferentes idiomas,  já realizamos muitos filmes e até mesmo desenhos infantis de longa metragem para ensinar preceitos budistas para a juventude. Frequentamos feiras culturais e alugamos nichos para distribuir livros gratuitamente e coletar cadastros das pessoas para mais tarde convidá-las para nossas palestras. Mas vemos que por aqui vocês não fazem isso. Vocês praticam um Budismo muito austero. Vocês são como um galho seco e nós somos como um galho florido.

Mestre Nemo respondeu com uma pergunta: – E como vocês interpretam o quinto Anga da Senda Reta dos Oito Caminhos?

 Todos que estávamos lá ficamos um pouco surpresos com essa pergunta, pois no Niskama Karma o Quinto Anga é o Meio de Subsistência Correto e entre suas várias interpretações uma delas é a abstinência de comer carne e sabíamos que aquele monge comia carne. Ele respondeu:

       – Para nós o Quinto Anga é Correta Vida.

        – E como vocês o interpretam?

– Em termos de tempo. Um dia tem 24 horas, um mês tem 30 dias, um ano 365 dias. Para nós a vida correta é aquela em que cada momento, cada instante é bem aproveitado.

Pensamos que Mestre Nemo iria aproveitar a deixa para mencionar o Meio de Subsistência Correto que na nossa escola é o trabalho (como meio de sobrevivência), mas também é a subsistência como comida e o não comer carne, mas ele não tocou no assunto.

Depois que o monge partiu perguntei a ele por que ele não questionou o habito de comer carne daquela seita.

       – Ele me pediu alguma orientação sobre os hábitos alimentares dele?

       – Não, não pediu.

       – Quando alguém nos pede orientação é porque está disposto a mudar, quando não nos pede é sinal que está satisfeito com sua vida como ela é. Seria abuso pretender orientar quem não pretende ser orientado. Isso fere nosso dever de compaixão.

       – Mas sabendo que ele tira a vida de outros seres para sobreviver não seria nosso dever fazê-lo ver isso?

       – Quando respiramos matamos milhares de vida, quando caminhamos esmagamos outras tantas sem nem mesmo perceber. A vida promana da morte e vice-versa.

       – Mas sendo o senhor nosso Mestre não tinha a obrigação de orientá-lo?

       – Antes da obrigação menor de orientar, vem a obrigação maior de respeitar. Ao respeita-lo estou ensinando a ele o valor da compaixão e através da compaixão pode ser que um dia ele venha a deixar de comer carne.

       – Mas isso não é levar a compaixão por ele longe demais?

       – Existiu no Oriente um homem muito rico e poderoso e ele resolveu construir um palácio a altura de suas posses e de seu poder. Ele adquiriu uma grande quantidade de terras e seus arquitetos desenharam uma edificação portentosa que seria construída em toda a extensão do terreno, mas ao iniciarem as obras se deram conta que dentro dessa imensidão havia um pequeno lote onde estava a palhoça de um homem e que deveria ser retirada de lá para não atrapalhar a harmonia da construção recém iniciada.  Emissários foram enviados a ele e negociaram a compra da propriedade por uma quantia bem superior a seu valor. Mas ele se recusou a vender. Sugeriram ao homem que contratou a construção do Palácio, que o mandasse matar ou que simplesmente o expulsasse dali. Mas esse homem que não só era rico e poderoso, mas também era sábio, recusou e disse: – Um dia ao verem o palácio que mandei construir as pessoas do futuro irão reconhecer que fui um homem que amava o belo e tinha sensibilidade. E ao verem a cabana contrastando com as demais edificações saberão que mesmo sendo sensível e amando o belo eu soube respeitar a vontade dos outros.

        Pense nisso, mas pense agora.

                                                              Satyananda Apta

Fique na serenidade do Buda!

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