A felicidade nesta vida.

AAA LOGO BUDISTAO Budismo busca a felicidade nesta vida.

Com certa periodicidade o templo do Mestre Nemo recebia visitas de pessoas leigas para sessões de meditação, palestras e respostas a perguntas.

Nesses encontros com os leigos um dos discípulos do Mestre Nemo gostava de fazer anotações pensando em transcrevê-las e publicá-las na forma de um livro.

Revendo essas anotações encontrei este diálogo:

VISITANTE: – Consigo compreender que seja criada uma religião no intuito de dar esperanças que iludam o homem que está em busca de um sentido para sua vida. Mas não consigo compreender como o Buda não tenha se dedicado a falar sobre Deus e sobre a vida após a morte.

MESTRE NEMO: – Buda falou sobre Deus e sobre a vida após a morte, mas como ele falava desses assuntos com muita sobriedade os sutras budistas não deram muita ênfase ao assunto.

– É mesmo? Ele falou sobre esses assuntos?  E por que a literatura budista não divulgou isso de maneira enfática?

– O objetivo do Buda era eliminar o sofrimento através de uma percepção mais profunda e equilibrada da realidade.

– Mas o senhor disse que ele falou sobre a vida após a morte. O que ele costumava falar sobre esse assunto?

– Muito pouco, só tenho memória de uma determinada vez em que ele tratou do assunto ao responder a pergunta de um visitante que lhe perguntou sobre o que ele achava da vida após a morte.

– E o que o Buda disse a ele?

– O Buda respondeu: sei muito pouco sobre esta vida, por que perder meu tempo conjeturando sobre a próxima vida?

– Ah! Mas Buda era um sábio e sabia muita coisa sobre esta vida. Por que ele diria que sabia pouco?

– Talvez porque mesmo sabendo muito ele estivesse ciente de que havia muito mais a saber.

– Mas ele não tinha conceitos sobre a vida após a morte?

– Sim, ele era homem e todos os homens têm algum conceito sobre esse assunto. Apenas ele não valorizava tanto o assunto como a maioria das pessoas.

– E o senhor poderia comentar algo sobre esses conceitos para mim?

– Posso compartilhar o conceito das quatro possibilidades.

– Quatro possibilidades? Que possibilidades?

– Nada sabemos sobre a morte, mas sabemos algumas coisas sobre a vida, visto que o Buda dedicou-se a estudar a vida e não a morte. Sabendo o que sabe sobre a vida, o homem desperdiça tempo conjeturando sobre as quatro possibilidades possíveis após a morte.

– E quais são elas?

– Depois que você morrer, haverão quatro possibilidades: primeira – existe algo melhor do que esta vida; segunda – existe algo pior do que esta vida; terceira – existe a reencarnação; quarta – existe o nada. Segundo o que o homem sabe sobre a morte existem apenas essas quatro possibilidades, mas há uma reflexão a ser feita a respeito envolvendo a dualidade.

– Dualidade? Reflexão? Que reflexão.

– Seja o que for que exista após a morte, seja qual for dessas quatro possibilidades que seja verdadeira, a que for verdade anula as outras três. Quanto as duas primeiras possibilidades elas são inúteis, pois decidir se uma coisa é boa ou má, melhor ou pior que outra, é apenas um juízo de valor e isso muda de pessoa para pessoa. Mas é quase certo que independente de qual dessas possibilidades irá prevalecer, naquele momento após a morte, não haverá nada que se possa fazer, pois a realidade apenas é e dela ninguém foge.

– Percebo, mas se o senhor diz que “naquele momento” não haverá nada a fazer, o senhor acredita que “em algum outro momento” algo poderia ser feito?

– Se você acredita que quem semeia mangas colherá mangas e não abacates e que quem semeia abacates colherá abacates e não mangas. Então é possível para você acreditar que os procedimentos anteriores possam gerar mudanças na colheita posterior, não é?

-É, isso parece ser a lógica.

– Isso parece nos conduzir à percepção de que o que quer que seja que colhamos na próxima vida será consequência da semeadura feita nesta vida, não lhe parece?

– Parece, parece sim, mas se milhares de religiosos, sacerdotes e fiéis se dedicam tanto a descobrir coisas sobre Deus e a vida após a morte, é constrangedor saber que Buda não se dedicou a isso.

– Os “religiosos” ao contrário dos budistas, tentam convencer a si mesmos e aos outros sobre conceitos que tentam provar ser verdadeiros. É muito difícil tentar provar ser verdade um conceito, uma ideia, mas conjeturar sobre a realidade é mais fácil e tem os pés firmemente apoiados no chão. Não são ideias abstratas, são reais e palpáveis. Enquanto os “religiosos” tentam provar ser real suas conjeturas, os budistas não tentam provar nada a ninguém, pois só falam da realidade e se ocupam de estudar essa realidade para compreendê-la de forma mais completa e mais profunda. Os “religiosos” se dedicam a provar alguma coisa a alguém, os budistas não precisam provar nada a ninguém, a realidade fala por si mesma. Apenas observamos as necessidades humanas e procuramos soluções para elas. Isso faz cessar a dor. O Budismo é o caminho simples, o caminho do meio. É simples e básico como a própria realidade.

Pense nisso, mas pense agora!

Satyananda Apta

Fique na serenidade do Buda!