A verdade sobre os suplementos alimentares:

O crítico de gastronomia da Folha de S.Paulo, Josemar Melo, publicou nesta sexta-feira (20) suas considerações sobre o Guia Alimentar para a População Brasileira elaborada pela Coordenação de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde. No texto, o jornalista classificou a publicação como lúdica e corajosa.
Veja reprodução da coluna abaixo:

 

Guia alimentar do governo é lúcido e corajoso

Obra do Ministério da Saúde diz, com imenso bom senso, que dieta deve basear-se em produtos pouco processados

Foram quatro anos de elaboração, inúmeros grupos de trabalho, 27 oficinas estaduais envolvendo todo tipo de organização e cidadão, 3.125 contribuições à versão preliminar colocada em consulta pública que resultaram em 150 páginas do “Guia Alimentar para a População Brasileira”, editado pelo Ministério da Saúde no final de 2014.

Tudo isso para chegar a conclusões de simplicidade vital, de quase obviedades que, porém, são constantemente ofuscadas pela voracidade da indústria alimentar, das cadeias dos fast foods, da lógica do latifúndio.

O universo da alimentação tem sido recoberto por falácias do tipo: para alimentar bilhões são necessários o consumo e a produção de comida industrial ultraprocessada, artificial e envenenada, mas farta, além de gigantescas monoculturas e sementes modificadas geneticamente.

O “Guia Alimentar”, porém, não compra o engodo. Baseando-se em estudos que vão de organismos das Nações Unidas a teses de Harvard (e também no clássico Brillat-Savarin ou no contemporâneo Michael Pollan), seu texto simples, mas embasado, aposta na vertente oposta: a valorização de alimentos frescos ou minimamente processados. E na vitalidade das tradições culturais locais.

A opção pelo natural baseia-se no fato de que os alimentos ultraprocessados (como refrigerantes, salgadinhos etc.) são danosos não só à saúde, mas também à cultura, à vida social e ao ambiente.

O livro também refuta a ideia de que nutrientes abastecem o corpo de qualquer forma que sejam ingeridos. Na verdade, eles são eficazes quando vêm incorporados no alimento original. Portanto, produtos industriais aos quais se acrescenta isso ou aquilo, da mesma forma que pílulas de suplementos que enriquecem a indústria farmacêutica, são inócuos.

A alimentação saudável, diz o “Guia” em sua imensa simplicidade e bom senso, deve basear-se em alimentos in natura ou minimamente processados, ser comedida no uso de gorduras, sal e açúcar e evitar ultraprocessados.

Deve ser feita exercitando habilidades culinárias, consumida com regularidade e atenção, com tempo adequado e em ambientes apropriados. Se possível, com companhia e, fora de casa, em locais com pratos feitos na hora.

É uma opção lúcida e corajosa, já que bate de frente com a grande indústria e todo o seu arsenal publicitário.

Num país onde, em que pese a choradeira dos empresários, grandes empresas vivem sendo privilegiadas pelo governo com isenções fiscais e “desonerações”, não deixa de ser auspicioso que um ministério se pronuncie pelo bem comum, numa questão tão vital como a alimentação.

Como o próprio “Guia” menciona, porém, “a superação dos obstáculos (…) em muitos casos requer políticas públicas”. Sem elas, por mais que os leitores tentem aplicar seus postulados, o impacto do “Guia” será quase nulo.

Mas exemplos como o da Prefeitura de São Paulo, que orienta merendas escolares a se abastecerem com pequenos produtores e serem confeccionadas localmente e com produtos frescos, mostra que essa visão pode trazer frutos.

GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA
AUTOR:
Ministério da Saúde

QUANTO: grátis (150 págs.)
ONDE: portalsaude.saude.gov.br
AVALIAÇÃO: ótimo

JOSIMAR MELO CRÍTICO DA FOLHA

 

 

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